A casa de André [irmão de Chico Xavier] era simples. Entramos cheios daquela alegria cristã dos primeiros tempos do Cristianismo Nascente.Entre os discípulos de Jesus havia um André.
            Os tijolos do piso impressionaram-nos a mente. Tudo era tão puro que havia ali a beleza do princípio. O irreal misturava-se ao real. Para nós, o Chico era um apóstolo. A presença da Espiritualidade Superior à sua volta nos envolvia. Médium como ele, sentiamos as vibrações dos amigos espirituais. Vidente, víamos as criaturas que o rodeavam e nos rodeavam. Tudo parecia de alguma forma fantástico e estranho. Tudo ali era rústico, pobre, simples. Se a simplicidade nos conduz ao Reino do Espírito, é evidente que estávamos no Reino do Espírito. Tudo se apresentava como num conto de fadas. Jesus estava conosco e nós o sentíamos em toda a parte.
            — Onde houver duas ou três pessoas reunidas em meu nome, Eu aí estarei.         Essa afirmativa do Senhor ressoava-nos ainda na acústica do tempo e da alma.
            Tomamos café, se não me engano, naquelas canecas bem mineiras, de lata. O café fica sempre quente e péla a boca da gente. O lugar era um tanto escuro e não me lembro agora se havia luz elétrica ou lampião mas, na retina do tempo, parece-nos que a sala era bem escura. Chico sentou-se à pequena mesa conosco e falamos do Flores do Bem, livro recebido por nós e assinado por Charles. Chico dissera que Charles era Charles Baudelaire e que as Flores do Mal se transformariam nas Flores do Bem.
            Ingenuamente, cheio daquela ingenuidade própria da idade e também própria dos que se aproximando do Reino do Espírito se deslumbram com os coisas de Deus e acreditam que todos os que lidam com a Doutrina são bons e são puros, propusemos ao Chico que o livro fosse enviado à Federação Espírita Brasileira para publicação. Supunhamos que tudo era fácil naquele campo. Considerávamos como ainda consideramos o livro bom, e isto pelas chaves de Sabedoria que revela, e assim admitiamos que não seria difícil a publicação. Ismael Gomes Braga que o lera se empolgara e nos orientara como devia ser publicado: tamanho pequeno, de bolso, para ser lido em qualquer lugar, livro melhor do que a melhor sabedoria oriental - essa a opinião de Ismael. Chico demonstrara por sua vez simpatia pela obra. Tudo parecia tão simples.
            Chico, porém, nos respondeu com carinho:
            — Ranieri, precisamos situar o nosso Charles no mundo dos livros. Acho, no entanto, melhor encaminhá-lo à LAKE. O nosso Lino publicará. A LAKE é uma editora boa que vem publicando boas obras atualmente.
            Sentimos, ao ouvir as palavras do Chico, qualquer coisa de estranho no ar.
            — Por que não podemos mandar para a Federação?
            — Ah, meu filho, você não sabe de nada! Lá o negócio não é tão fácil assim. Olha, quando nós recebemos o livro Emmanuel, enviamos à Federação Espírita Brasileira. Logo depois recebemos uma carta da Federação, dizendo que o livro não prestava e que a Federação não estava disposta a perder dinheiro com o livro. Não iriam publicá-lo. Chocados com o fato, escrevemos-lhe insistindo na publicação, especialmente por ser um livro escrito por Emmanuel, nosso amado Benfeitor, e que mandassem o orçamento do livro que nós pagaríamos a edição. Responderam asperamente que não. Não publicariam, que não podiam perder dinheiro e que nós também não iríamos perder. Nós então nos reunimos em Pedro Leopoldo: nós, o dr. Rômulo e outros companheiros e juntamos dois contos e duzentos mil réis que enviamos, em cheque, para a Federação Espírita Brasileira. Pouco depois, recebemos comunicação que iriam publicar o livro com o nosso dinheiro, fornecido por nós, mas que não se responsabilizariam por nada, nem pelos prejuízos e que não o publicariam sob a égide da Federação, isto é, não viria na capa ou no livro a marca da Federação como Editora e sim, simplesmente, como Distribuidora. Concordamos e não se ouviu falar mais no livro.
            Muito tempo depois recebemos uma carta muito delicada, na qual a Federação dizia:
            “Chico, como é que vamos fazer? O livro Emmanuel já está na terceira edição, temos vinte e tantos contos em caixa e você até agora não nos mandou nenhum documento de doação do livro para a Federação...”
            Diante disso, esclareceu o Chico, escrevi-lhes dizendo que eu enviaria o documento que eles quisessem, por cartório, etc., porque nós estavamos neste mundo não para servir aos homens mas para servir à Causa...
            Chico falou e nós ficamos por um momento meditativos. O silêncio envolveu a todos e eu vi através de pequena fresta o drama que acompanhava o amigo no campo dos livros.
            — Não tem nada, Chico, enviarei à LAKE.
            E o Flores do Bem foi publicado pela Livraria de S. Paulo.
            Tempos depois, tentei a Federação oferecendo o João Vermelho no Mundo dos Espíritos. Conversei com o Wantuil e ele me disse que infelizmente tinha um quarto cheio de livros do Chico encalhados e vinte e dois volumes novos para publicação. Mas que se eu quisesse poderia entrar na fila dos vinte e dois; seria o vinte e três... Embora o assunto interessasse, fui de novo para a LAKE.
*
            Na semi-escuridade da casa de André, que irradiava as vibrações do tempo dos Apóstolos do Cristianismo Nascente, pude entender a luta de um homem que iniciara a sua marcha pela libertação do mundo.
            A lição serve para todos.

Livro:  Recordações de Chico Xavier
           R. A. Ranieri
LAKE - Livraria Allan Kardec Editora